Mantra

Palavras emancipadas ao vento
do tal raciocínio absente dentre
todas somente seu nome aparece
zunindo crescente sem ecoar
ressoando em assonâncias de prece
lapida as águas revoltas do mar
pois em seu vaivém discrepante mais
vem sem parar de impor seu rubor
que se entrega ao tentar se calar.

AB

7 pensamentos sobre “Mantra

  1. * Palavras emancipadas ao vento
    – palavras ditas sem planejamento, fluxo não filtrado de sensações para linguagem?
    * do tal raciocínio absente dentre
    – o raciocínio, filtro intermediário entre as sensações e a linguagem, está ausente
    * todas somente seu nome aparece
    – ❤
    * zunindo crescente sem ecoar
    – passei um bom tempo tentando entender a contradição 'sem ecoar' com 'ressoando'. Acho que dá para pensar que o nome do amado, sempre que 'emancipado', apenas cresce em intensidade, é monotônico, não decresce e depois cresce. Mas decresce, e decresce bruscamente. É então que desaparece e uma nova repetição se dá. Não ecoa enquanto cresce. Mas desaparece e ressoa. O eu-lírico não se permite enxergar que o nome, num largo espaço de tempo, ecoa. Permite-se apenas observar os espaços de tempo em que ele se 'emancipa', iludindo-se de que ele não ecoa. Não ecoa enquanto aparece.
    * ressoando em assonâncias de prece
    – aqui a contradição, mostrando que o eu-lírico tem ciência de que o nome ecoa/ressoa(assonância), mas resiste em aceitar. Cada eco é um novo crescendo do amor, até a queda. Cada ciclo é uma nova prece
    * lapida as águas revoltas do mar
    – o mar seria o conjunto de sensações/sentimentos do eu-lírico? Sendo assim, revela serem violentos e disformes, ganhando forma e calma(?) ao soar do nome?
    * pois em seu vaivém discrepante mais
    – o vaivém é o que normalmente o homem vê, a expressão do mar, a pele do mar
    * vem sem parar de impor seu rubor
    – submissão da vontade do eu-lírico aos seus sentimentos? O rubor como expressão involuntária de um sentimento, do corpo
    * que se entrega ao tentar se calar.
    – a ideia do rubor, do corpo expressando o que as palavras caladas tentam esconder

    Eu sempre pensei que poesias deveriam vir acompanhadas de algum 'manual', ou que a 'biografia' do autor deveria ser disponibilizada, ou, enfim, que algum meio de evitar a angústia de sentir que conseguiu uma interpretação válida para o texto mas que talvez não tenha conseguido chegar ao sentido intencional…

  2. Agradeço o comentário!
    A mim, ao menos, toda interpretação parece válida. Afinal, depois que o pensamento assume a concretude da palavra torna-se independente. E é justamente essa a beleza: a impressão individual do leitor, seja por identificação ou pela apreensão de imagens estranhamente novas.
    Abraço.

    • Ora, mas as duas interpretações têm suas belezas: a interpretação pessoal por ser como que uma reação de seu ser a um conjunto de estímulos, o texto moldando-se ao que o lê e fazendo emergir partes do seu ser para preencher as lacunas de sentido, partes que não se revelam normalmente; e a interpretação cujo significado coincide com o significado pretendido pelo autor. É esta última que acho mais interessante! A primeira, para mim, serve meramente como convite para explorar a segunda. Mais interessante porque mais complexa, já que não é mera reação no contato com a obra, mas depende de um esforço, bastante gratificante por diminuir a solidão no mundo, ao aproximar o leitor do autor pela via da compreensão.

  3. Adorei! O ”sem ecoar” sugeri que o nome nunca para de ser ”pensado”, assim, não se ouve o eco, mas somente a repetição do nome completo, num ”vaivém discrepante”… isso gostei muito! Acho que o vaivém é do nome e não do mar que por ele acaba sendo lapidado, e pela imposição de seu presença envergonhada.
    Parabéns!

      • Voltei para reler, aliás várias vezes, acho que me identifiquei. Esse ”vaivém”… não é só do nome no pensamento, é também a presença da pessoa, que hora se afasta, hora se aproxima… e cada vez mais se aproxima e nessas aproximações, talvez do acaso, ele não consegue esconder o que sente. Ó só eu, isso é o que leio porque é justamente o que tenho vivido… Ah, a poesia… Obrigada, Alessandra, por me cantar assim!

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